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Artigo de Arnaldo Jabor: 'Das galanteadas virgens à mulher puta/objeto...'

Publicada em 12 de Janeiro de 2012 às 10h10 Versão para impressão


Das galanteadas virgens à mulher puta Das galanteadas virgens à mulher puta
Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler. No lugar de preservarem a virgindade até o casamento, de serem mulheres de um homem só, adotaram o putismo como moda! Muitos dizem que "hoje, infeliz é o casal que só tem filhos mulheres"... Será?

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Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus.

O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares?Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..."

Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem.

Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem. A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele.

Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens?

Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..."

Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva.

Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade.

A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade".
É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Elas estão destruindo os lares, acabando com as famílias, imprimindo ao homem o desejo de apenas "comê-las" como se faz com um prato de comida num restaurante fedido de um desses mercados públicos das cidadezinhas do interior nordestino. Você come e depois vai para a latrina vomitar (...). Será que fui apenas barrado do baile?
Fonte: tribunadebarras  |  Edição: Jackson Coelho

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Comentários (5)

  • 05/03/2012 às 20h34

    Bom,o comentário desta tal de Fabiana é aprova de como as próprias mulheres defendem a exploração sexual que sofrem.E depois,nós acusamos os homens!Desde que o mundo é mundo existem assassinatos e crimes e nem por isso consideramos normais e defendemos tais práticas,por que em relação á nossa objetificação deve ser diferente? Só reforçou o que o Jabor escreveu: nós somos as culpadas e apedrejamos quem é contra.Se é assim,fica insensato reclamar quando os homens nos tratam como bundas e peitos ambulantes.E viva o feminismo pro-prostituição brasileiro!

    Nadia, Rio de Janeiro-RJ
  • 23/02/2012 às 13h40

    O artigo só não é melhor, porque há expresso no final de forma até bem clara um pouco do preconceito sulista em relação ao nosso nordeste, mas ele é sim um cronista brilhante, não há dúvida, não só por este texto, mas por todos os demais que já fez.

    João Batista, Uruçuí-PI
  • 14/01/2012 às 10h13

    Gente, vocês já pararam prá pensar que a oferta é porporcional à demanda??? Prostitutas há desde o início da civilização. Estão chocantes hoje porque os meios de comunicação (graças a Deus) são globalizados. Agora vem prá cá esse "coitadinho do Jabor" dar uma de "espantado"... Diz isso hoje porque está revoltado com sua impotência (justa, haja vista sua idade). Mas vá lá pesquisar sua vida pregressa e descobrirá a quantidade de prostitutas que pagou, o sem número de adolescentes que cobiçou, as milhares de revistas que usou dentro dos banheiros... Hipócrita, essa é a definição que lhe ofereço. Depois de "comer o banquete" durante anos e anos, vem cuspir no prato. Como ele, inúmeros velhos impotentes, com inúmeras pontes de safena e proibidos de se valerem da maravilhosa azulzinha. Ah, tenha dó. Há muitos assuntos mais importantes, mais urgentes e mais inteligentes para uma matéria! Ou a idade afetou os neurônios, também?????

    FabianaCGN, Teresina-PI
  • 12/01/2012 às 15h42

    Tamanaha sabedoria so poderia vir do grande Arnaldo jabor

    antonio, Uruçuí-PI
  • 12/01/2012 às 12h22

    Que artigo brilhante!!Que artigo mais condizente com nossa realidade,inclusive a uruçuiense.A tão sonhada igualdade entre homens e mulheres acabou por tornar-se equivocada.Afinal, nossas fêmeas modernas,livres e liberais permitem serem usadas cotidianamente por homens que apenas aproveitam tamanha babaquice feminina.Cada dia é mais gritante a auto degradação da imagem feminina.Seja através de músicas,cujo tema principal é desce "PIRIGUETE" ou danças,revistas e sites pornográficos.Mulheres recomponham-se!!!Ser livre não significa ser puta!

    Divina, Benedito Leite-MA
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