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Artigo:JOSÉ DA MALÁRIA-DOIDO PELA VIDA

Publicada em 31 de Agosto de 2011 às 07h48 Versão para impressão


Zé da Malária em rua do centro de Uruçuí Zé da Malária em rua do centro de Uruçuí
Certo dia, apareceu em Uruçuí, um homem com ares diferente. Homem de poucas palavras e metido numa humildade sem medida. Sempre portando um saco cheio de restos de alimentos e outros objetos, uma barba sempre por fazer e uma face surrada pela luta em prol da sobrevivência, ele parecia em busca de algo; mas não dava sinais de saber o que nem onde encontrar. Era um andarilho desnorteado.

Caminhava...caminhava...cabisbaixo pelas ruas dessa Cidade Menina, como quem procura a extrema ilusão do indefinível, do vago, do fim! Era um pedinte que vivia (?) na turbulência de seu íntimo –profundamente amargurado. Sentia as amarras de uma vida entregue às traças sociais, ao caos da loucura. Com seus dentes amarelados, não carregava motivos para o franqueio de um sorriso. O seu tempo quase se reduzia a um compromisso indesejável por qualquer ser humano, que era roer os restos de alimentos, os sobejos dos cães andarilhos deste município. As suas vestes sujas e escurecidas pelo tempo e pelo barro-toar de seu dormitório, davam a tônica de seu estado de abandono. Roupas improvisadas com o que havia de sobras de trapos abandonados pela nossa gente.

Como todo bom andarilho, “Cumpadre Zé” nunca abandonou seu chapéu de palha e um saco onde eram transportadas as migalhas e objetos em sua loucura incansável em busca do “eu”. O choque, o conflito dos “eus” naquela mente desvairada pelo rolo compressor social tornou o vítima de duplo abandono: seu e da sociedade.

O que acalentava e satisfazia parte de seus instintos era a “Severa”-sua eterna companheira. Ela, como vítima da timidez profunda e insana que a tomava, recolhia-se em seu canto de lamentos e horrores.

José da Malária e a Severa, como bom casal, sempre se entendiam. Mesmo quando rolava uma ponta de ciúmes envolvendo a Maria Laura. Na busca da satisfação dos instintos sexuais, o casal não tinha predileção por lugar ou horário. Pouco importava se tinha público presente. Isto, com certeza, era menos constrangedor do que ser vítima da loucura e do preconceito social. Certa vez, o ato sexual foi consumado nas calçadas ao lado da agência do Banco do Brasil. Alguns curiosos chegaram a cobrir o casal enquanto durou o deleite satisfatório dos instintos.

A Severa, ainda mais tímida e contida do que o seu companheiro, não hesitava em mostrar “suas vergonhas” quando a meninada gritava:

- A Severa é homem! A Severa é homem!

Ela levantava a saia até a altura do umbigo para provar que era mulher.

José da Malaria e sua cara-metade abandonaram nossa cidade. Ela faleceu numa passagem por Bertolinia. Ao vê-la desfalecida, ficou bravo para impedir que o corpo fosse enterrado. Empunhou um facão e ameaçava qualquer pessoa que se aproximasse do corpo de sua amada. Do alto de sua loucura ele tinha consciência de que ali era o fim de uma vivência. A barba estava mais crescida e suja; os olhos não suportaram a dor da partida e lacrimejaram. Pela primeira vez, aqueles olhos que sempre pareciam tristes, choravam em desatino latente. E ainda, pela primeira vez, ele parecia abraçar a consciência e medir o significado daquela situação. Após algum tempo, vencido pelo cansaço e uma aparente volta da demência, ele cedeu. Deixou que levassem para a frieza da terra, aquela que, por alguns anos, foi consolada e serviu de consolo para os seus achaques. Olhando pela última vez para o corpo da amada, ele saiu a caminhar e procurou abrigo sob uma enorme mangueira. Ali, mais uma vez, ele limpou a sujeira das mãos na longa e endurecida barba. Depois de algum tempo, ele sumiu. Sumiu, mas lembro em vivo pensamento, aquele moço barbudo e triste. Era uma tristeza macabra e indomável que o transformava num cumpridor de sina sem sentido. Não tardou muito, seu corpo também seguiu o mesmo destino dado ao de sua amada.

Assim, José da Malaria foi mais um andarilho que era doido pela vida.



Professor ANCHIETA SANTANA

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Fonte: Professor Anchieta Santana  |  Edição: Redação Uruçui

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Comentários (14)

  • 02/09/2011 às 07h15

    Respondendo a Raimundo, votaria sim no prof. Anchieta Santana desde que ele se filiasse ao DEM, partido de novas idéias que muitos uruçuienses estão aderindo. Conquistar uma vaga no Parlamento Municipal, seria o ideal.

    Romildo Melo, Uruçuí-PI
  • 01/09/2011 às 14h29

    Parabéns Anchieta. Infelizmente uma das poucas pessoas que escrevem na nossa cidade. Um grando opção para prefeito no próximo ano. faça como Suplicy coloque seu nome a disposiçao do partido. Acho que até o Romildo Melo votaria em você. Não é Romildo??

    Raimundo, Uruçuí-PI
  • 01/09/2011 às 12h02

    Eu tive o prazer de o conhece-lo... Muito boa a materia. Parabens.

    jose edson, Uruçuí-PI
  • 01/09/2011 às 08h43

    Recordo-me do casal, e mesmo criança percebia que nenhum trabalho social foi realizado pelos dois, igual não vejo hoje por muitos outros andarilhos pelas rua de Uruçuí.

    Vanessa Rocha, Uruçuí-PI
  • 01/09/2011 às 08h20

    Parabens ao professor Anchieta pelo artigo. Sempre tenho você como uma das mentes mais inteligentes dessa regiao. seus olhos veem o que muitos nao conseguem. Continue publicando seus textos para enriquecer nossa historia. coe é de +

    Maria de Lourdes, Uruçuí-PI
  • 31/08/2011 às 22h34

    Profº Anchieta quem é Rei nunca perde a Majestade, vc é e sempre será um Gênio, PARABÉNS pela: humildade, simplicidade, honestidade e respeito pelo nosso povo, de Benedito Leite e Uruçuí, pois o Zé e Severa também fizeram e fazem parte da nossa pequena comunidade de Benedito Leite, pois nus tempos de estudos em Uruçuí, Nós também eramos velhos conhecido desse maravilhoso casal,pois não só O Brasil como Uruçuí precisa de pessoas como Você.

    Deulth Soares de França, Benedito Leite-MA
  • 31/08/2011 às 21h49

    Parabens Prof. Anchieta Santana, muitos de nós relembramos este momento com muita clareza, a presença de zé da malária andando em nossas ruas de uma urucui ainda pequena.

    milton santana, Uruçuí-PI
  • 31/08/2011 às 21h42

    É orgulho para nós sentir um passado narrado e bem escrito por Anchieta, que a cada dia que passa trasmite o que queremos, reviver os bons tempos. Está de parabens mais uma vez, professor.

    Romildo Melo, Uruçuí-PI
  • 31/08/2011 às 20h29

    parabens prof anchieta. por esta bonita e triste materia pois quando era criança que vinha ao uruçui mais meu querido,e hoje finado pai,eu tinha muito medo do zé e da severa.mais uma veis parabens pelo o seu trabalho.

    assis laurindo, Cosmópolis-SP
  • 31/08/2011 às 19h56

    parabens prof.anchieta uma maravilha de materia e sempre bom pode sabe mais do pasado de minha cidade e principalmente sobre ze da malaria

    marcio fran, Uruçuí-PI
  • 31/08/2011 às 15h33

    Prof. Anchieta: Esta matéria de sua autoria, é simplesmente fantástica. Obrigada por me fazer "voltar no túnel do tempo".

    Denise Coelho, Manaus-AM
  • 31/08/2011 às 13h27

    Professor,Anchieta vc está de parabéns.

    Mauricio, Uruçuí-PI
  • 31/08/2011 às 09h04

    Professoar Anchieta, me orgulho de ter estudado na U.E.M.P.L . quando você foi Deiretor. parabéns pelo artigo.

    George André Gomes Pereira, Baixa Grande do Ribeiro-PI
  • 31/08/2011 às 08h46

    Meus parabens, muito bem lembrada esta triste história, que eu vi muitas vezes, lembro também que ele era um bom rezador e rezava nas pessoas para que fosse aliviada a sua dor, mais a dele mesmo ninguém nunca conseguiu entender.

    guia, Uruçuí-PI
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