Portal NOticias de Uruçui

Clinica ISO topo
Notícia

Catolicismo: os candidatos a santos brasileiros

Publicada em 03 de Outubro de 2009 às 23h50


Conhe?a as hist?rias de homens e mulheres com boas chances de alcan?ar a santidade.

A junta m?dica formada por especialistas das cidades de Varginha, Belo Horizonte (MG) e S?o Paulo debru?ouse sobre o caso de Ana L?cia Meirelles Leite e sentenciou: a mineira de Caxambu tinha um buraco no cora??o e precisava ser operada ?s pressas, pois havia risco de morte. Corria o ano de 1995, Ana L?cia estava com 49 anos e os m?dicos sabiam que lutavam contra o tempo.
A dona de casa tinha uma doen?a grave conhecida como CIA, sigla para comunica??o intra-atrial, que fazia o sangue venoso se misturar ao arterial, dificultava a oxigena??o sangu?nea e sobrecarregava o pulm?o. A cirurgia foi marcada para o dia 17 de julho, na capital paulista. Um dia antes da opera??o, Ana L?cia teve febre alt?ssima e o procedimento foi adiado em uma semana.
A partir da?, ela come?ou a apresentar uma melhora inexplic?vel. "A falta de ar e o cansa?o que eu sentia e me impediam de fazer tudo diminu?ram sensivelmente", lembra Ana L?cia, que abandonou a ideia da cirurgia. Apenas em abril de 1996, por insist?ncia do m?dico ?talo Nicollielo, o primeiro a fazer seu diagn?stico, ela se A submeteu a uma bateria de exames diante do mesmo corpo cl?nico para avaliar, novamente, a necessidade de uma interven??o. A equipe constatou o fechamento da cavidade e a cura. "N?o existe explica??o cient?fica para o que aconteceu", atesta Nicollielo.
Todos os cr?ditos para essa hist?ria com final feliz s?o endere?ados a uma mulata analfabeta, filha de m?e escrava e pai desconhecido, que ganhou fama na Minas Gerais do s?culo XIX por seus conselhos s?bios, sua devo??o a Nossa Senhora e as gra?as que distribu?a ao povo da regi?o. Essa mesma mulher tem grandes chances de ser a primeira santa genuinamente brasileira - Madre Paulina, canonizada em 2002, realizou suas obras no Pa?s, mas ? italiana.
Nascida Francisca de Paula de Jesus, na cidade de S?o Jo?o Del Rey, em 1810, venerada pelos fi?is como Nh? Chica, foi a ela que Ana L?cia recorreu suplicando pela cura. "Rezava: 'Minha Nh? Chica, me deixa viver mais um pouco", lembra. "E ela deixou." Agora, a recupera??o da mineira de Caxambu, com direito a depoimento do m?dico ?talo Nicollielo, ser? anexada ao processo de canoniza??o de Nh? Chica, j? no Vaticano. O caso est? sendo considerado, pelos postulantes da causa, como o primeiro milagre da mulata que viveu em Baependi.
Nh? Chica n?o ? a ?nica nessa corrida rumo ? santidade. Existem outros candidatos a santo espalhados pelo Brasil. Nem todos est?o t?o bem encaminhados quanto ela, que ? serva de Deus (leia quadro ? p?g. 95) e j? tem parecer favor?vel do Vaticano quanto a um milagre. Mas o aumento dos processos nos ?ltimos anos mostra que uma onda de canoniza?es nacionais se avizinha.
N?o h? um registro oficial de quantos processos de reconhecimento de santidade existem, j? que cada uma das 258 dioceses do Pa?s se encarrega de tocar os seus. Sabe-se, por?m, que, atualmente, h? cerca de 60 causas em andamento. A estimativa ? de irm? C?lia Cadorin, 81 anos, a maior autoridade do Pa?s no assunto, respons?vel pela canoniza??o de Madre Paulina, confirmada em 19 de maio de 2002, e de Frei Galv?o, em 11 de maio de 2007.
A promo??o de Nh? Chica, que faria companhia no mais alto dos c?us a Frei Galv?o, atualmente o ?nico representante genuinamente brasileiro, come?aria a fazer justi?a ? f? nacional. O Brasil ? o maior pa?s cat?lico do mundo, com 145 milh?es de fi?is. A It?lia, por exemplo, com mais de 100 santos, tem apenas 57,7 milh?es de devotos.
Questionada sobre as raz?es dessa distor??o estat?stica, irm? C?lia, que morou 20 anos em Roma, ? categ?rica. "No Brasil ainda falta gente qualificada que entenda a import?ncia e aceite a complexidade da burocracia da Santa S?", diz. Ela mesma admite que, no come?o da carreira como postuladora, h? 26 anos, estranhava o rigor da Congrega??o para a Causa dos Santos, ?rg?o do Vaticano que estabelece as regras para o processo de canoniza??o,
Mas hoje entende. "Os santos s?o refer?ncias e a canoniza??o ? irrevog?vel", diz. "Todo cuidado ? pouco quando o que se faz tem consequ?ncias eternas." O caminho, portanto, tem que ser dif?cil. Mas dif?cil n?o ? imposs?vel. E foi isso que a religiosa mostrou quando conseguiu canonizar Madre Paulina e Frei Galv?o. "O brasileiro acordou para a causa dos santos", resume.
Baependi, localidade no sul de Minas onde Nh? Chica construiu sua obra, est? mais do que desperta. Embora j? n?o participe da vida da cidade h? 114 anos - ela morreu em 1895 -, as hist?rias da mulata milagreira continuam vivas por l?.
No munic?pio de 20 mil habitantes, onde as mortes s?o anunciadas pelo sistema de altofalantes instalados em duas igrejas, os mais idosos permanecem como guardi?es dos casos mais interessantes da mulher que, de t?o santa, chegava a levitar, garantem seus devotos. O excomerciante C?sar Solm?, 93 anos, conta que recebeu pelo menos duas gra?as. Uma foi ter sobrevivido a um ataque do cora??o e outra foi ver o filho sair ileso de um grave acidente. "Componho sonetos e m?sicas para ela", afirma.
At? a canoniza??o de Madre Paulina e, sobretudo, de Frei Galv?o, o brasileiro mantinha uma dist?ncia respeitosa dos seus santos de devo??o. Afinal, boa parte deles viveu uma realidade t?o diferente, em um passado t?o distante, que era imposs?vel estabelecer v?nculos que ultrapassassem o plano da f?, essa sim universal.
Com a canoniza??o de Frei Galv?o, as pessoas viram que um homem que teve a vida marcada pela hist?ria nacional - seu pai o matriculou na ordem franciscana temendo a persegui??o dos jesu?tas pelo marqu?s de Pombal, por exemplo - podia ser santo.
E essa aproxima??o tamb?m ajudou a desmistificar a figura do santificado, tido como uma pessoa perfeita. Esses dois fatores foram decisivos para a explos?o que se v? nas candidaturas hoje. De repente, o p?roco da cidade, a freira e at? as pessoas comuns passaram a ser vistos como candidatos em potencial. E figuras que eram santificadas pelo povo, mas ignoradas pela hierarquia cat?lica, come?am a buscar seu lugar no c?u.
Um dos melhores exemplos de for?a da f? popular vem do Cear? e tem um nome bastante conhecido. Padre C?cero ou simplesmente Padim Ci?o. Ele nasceu C?cero Rom?o Batista, no munic?pio de Crato, em 1844, e foi pol?tico e l?der religioso ao mesmo tempo. A f? em torno de sua figura ? tamanha que se criou uma esp?cie de mitologia pr?pria, com hist?rias que beiram a fantasia.
"Isso pode ser negativo", ressalva irm? C?lia. Segundo ela, quando a hist?ria de um candidato a santo ? aumentada na f? popular sem que haja documenta??o para prov?-la, fica dif?cil dar in?cio a um processo de canoniza??o. "Mas sei que tem gente trabalhando no Cear? para levantar documenta??o do padre C?cero", revela a religiosa. "E ele ? um forte candidato."
Segundo os especialistas, a l?gica da santifica??o ? simples: quanto mais postulantes, mais chances. Afinal, como disse o papa Jo?o Paulo II, o pont?fice que mais canonizou santos - 482 em 26 anos de pontificado -, em sua visita ao Brasil em 1991, o Brasil n?o precisa s? de santos, o Brasil precisa de muitos santos.
A diocese de S?o Jo?o da Boa Vista, no interior de S?o Paulo, seguiu ? risca a orienta??o papal. Poucos casos est?o t?o bem documentados quanto o do padre Donizetti, que foi p?roco de Tamba?, cidade de 22 mil habitantes distante 270 quil?metros da capital paulista, de 1926 a 1961. O processo pela canoniza??o do religioso, nascido Donizetti Tavares de Lima, em Santa Rita de C?ssia, Minas Gerais, foi aberto em 1982.
Ele sofreu algumas interrup?es, mas foi retomado com for?a depois da canoniza??o de Frei Galv?o. Hoje, Tamb?u respira padre Donizetti. Casas, lojas, hot?is, restaurantes e as onipresentes sorveterias locais exibem, orgulhosos, a imagem do candidato a santo, que teve seu processo encaminhado a Roma no dia 14 de setembro. "Em Tamba?, falar das gra?as do padre parece conversa de boteco", brinca Anderson Donizetti Ramos da Silva, 36 anos, sobre o assunto preferido da popula??o local.
Estima-se que hoje, no Brasil, existam 2,7 milh?es de Donizettis com menos de 45 anos. Na cidade, ? verdade incontest?vel que todos foram batizados para homenagear o p?roco. H? at? a Missa dos Donizettis, feita anualmente no Santu?rio Nossa Senhora Aparecida. Donizetti Batista Prado, 53 anos, empres?rio da cidade, ? presen?a garantida.
"Minha m?e tinha sofrido complica?es durante a gravidez da minha irm?, nove anos mais velha do que eu", explica. Os m?dicos disseram que Ilda Prado, hoje com 82 anos, n?o poderia mais ter filhos. Mas, contrariando os progn?sticos, ela engravidou. Prado veio ao mundo em 3 de janeiro, a mesma data de nascimento do p?roco, que foi seu padrinho de batismo
"S?o tantas hist?rias de gra?as alcan?adas que temos dificuldade para acompanhar os relatos", conta Jos? Ad?lson Pieruzzi, 70 anos, presidente da Associa??o de Fi?is do Padre Donizetti.
Empres?rio, ele dedica seu tempo ? administra??o da associa??o que re?ne n?o s? hist?rias, mas tamb?m fundos para a canoniza??o do religioso. Fazer um santo, al?m de dar trabalho, custa caro - pelo menos R$ 90 mil. "Mas estamos em uma situa??o confort?vel", diz Pieruzzi. Segundo suas estimativas, a associa??o tem cerca de 400 filiados que pagam uma taxa anual de R$ 25 e se comprometem a ajudar sempre que h? alguma despesa imprevista. "Estamos com R$ 57 mil em caixa", conta.
Transformar um homem em santo ? um processo demorado, cansativo e meticuloso (leia quadro ? p?g. 94). S?o, pelo menos, 12 anos de dedica??o para al?ar uma pessoa a essa condi??o. E quase nunca se executa todo o trabalho de maneira cont?nua. Os processos sofrem interrup?es das mais variadas naturezas. ?s vezes, o postulador passa anos em busca de um documento.
Outras, o dinheiro de quem financia a causa - uma ordem ou congrega??o religiosa ou doa?es de devotos para a diocese - acaba. N?o raro, o pr?prio postulador morre e o Vaticano ordena o fechamento at? que algu?m com compet?ncia reconhecida se disponha a assumir o processo. Um exemplo emblem?tico ? o da canoniza??o do beato Jos? de Anchieta.
Foram 378 anos de trabalho marcados por interrup?es que chegaram a durar mais de 100 anos. "A Igreja n?o tem pressa", diz irm? C?lia. A Igreja tamb?m ? democr?tica no acolhimento das candidaturas. H? crian?as entre os postulantes, por exemplo. Uma delas ? Ant?nio da Rocha Marmo, que nasceu em 1918 na capital paulista e morreu de tuberculose aos 12 anos. "Estamos esperan?osos", afirma o padre Paulo Afonso Alves Sobrinho, vice-postulador do processo.
"Quando o caso n?o exige relatos de quem viu o candidato a santo em vida, as coisas fluem com mais tranquilidade", explica. A onda de devo??o em torno de Antoninho existe desde a d?cada de 30 - foi ela que empurrou a causa adiante. Mas s? em outubro de 2007 come?ou o processo formal, acolhido pelo Vaticano: Antoninho j? ? servo de Deus. Irm? Dulce, a freira baiana visitada em duas ocasi?es pelo papa Jo?o Paulo II, ? outra que est? bem encaminhada.
A religiosa que nasceu em 1914 e morreu em 1992 foi declarada vener?vel em janeiro deste ano. Agora basta comprovar um milagre para que ela se torne beata. "Temos duas hist?rias fortes que contam curas inexplic?veis", revela Oswaldo Gouveia, que coordena a divis?o de Mem?ria e Cultura das Obras Sociais Irm? Dulce (Osid). Segundo Gouveia, os dois casos escolhidos foram pin?ados de um cat?logo de quatro mil gra?as registradas no memorial instalado na Bahia.
Como o Vaticano ainda n?o avaliou os casos, eles permanecem em sigilo. Mas sabe-se que uma das hist?rias trata de uma complica??o aparentemente irrevers?vel durante um parto. "A m?e teve hemorragia grave e estava desenganada", conta Gouveia. A mulher, ent?o, invocou irm? Dulce e se salvou.
Manter a estrutura que um candidato a santo requer em seu quartelgeneral tamb?m n?o ? f?cil. Que o diga a pequena Tamba?. Semanalmente, a casa de padre Donizetti ? visitada por uma m?dia de tr?s mil romeiros.
Todos disputam rel?quias do padre. Quando vivo, o sacerdote n?o aprovava essa rever?ncia. Pedia que quem recebesse gra?as invocando seu nome as atribu?sse a Nossa Senhora. At? que, em 1954, um vendedor de vinhos chamado Constante Marcassa visitou o padre reclamando de fortes dores no joelho.
Com uma b?n??o, a dor se foi. "Como comerciante, ele viajava muito e espalhou a hist?ria", diz Francisco Donizetti Sartori, que integra a comiss?o hist?rica pela causa. Em pouco tempo, Tamba? virou um centro de romarias. No auge, em 1955, um rio de gente desaguava dos trens da linha Mogiana, inundando com 30 mil romeiros a cidade que ent?o tinha pouco mais de 18 mil habitantes. A maioria das curas atribu?das a ele teria se dado durante essas peregrina?es. S?o milhares de muletas, centenas de garrafas de aguardente, ?culos de grau e partes do corpo humano em cera guardados na casa como testemunhos dos milagres.
Apenas duas hist?rias de milagres, comprovadas por centenas de documentos e an?lises m?dicas e teol?gicas, s?o necess?rias para o Vaticano referendar a santidade de um candidato. Mas, normalmente, antes de o primeiro papel pousar na C?ria Romana, o povo j? al?ou seu santo ao altar. Caso do padre Bento Dias Pacheco, filho ?nico de fam?lia rica que nasceu em 1819, em Itu, a 90 quil?metros da capital paulista.
Para ele, a vida se resumiu a banhar, alimentar e limpar as feridas de um grupo de p?rias: os leprosos. "No come?o, padre Bento tinha nojo dos infectados", admite Maria Claudete Camargo, estudiosa do religioso. Mas ele superou os preconceitos e, aos poucos, tomou gosto pelo trabalho. "Essa ? uma hist?ria de supera??o dos pr?prios limites", diz o padre Francisco Rossi, vice-postulador da causa do padre Bento.
Em pouco tempo, o sacerdote j? abra?ava e beijava os doentes, com quem dividia o mesmo teto. Apesar do contato direto, nunca contraiu a doen?a e morreu aos 92 anos. Seu ?ltimo desejo foi ser enterrado no cemit?rio dos leprosos. "A gente sentia um misto de admira??o e medo da hist?ria dele", diz Maria L?cia Caselli, 76 anos, moradora de Itu desde 1938.
Em agosto de 1985 foi aberto o processo pela canoniza??o do padre, na diocese de Jundia?. Mas, como nos outros casos, foi s? depois da canoniza??o de Frei Galv?o que a causa engrenou. "Em outubro de 2007 enviamos toda a documenta??o que reunimos ao Vaticano", afirma padre Rossi. Foram 27 pastas com documentos. Para muitos, tanto trabalho j? deveria ter dado frutos. "Se ele fosse de alguma ordem ou congrega??o, as coisas talvez andassem mais rapidamente", polemiza uma admiradora. Mas paci?ncia ? fundamental em casos como esse.
A irm? C?lia sabe disso. Embora n?o participe, oficialmente, de todos os processos que correm hoje no Brasil, ela ? invariavelmente consultada por quem quer dar in?cio a uma canoniza??o.
Conhecida como a fazedora de santos, a religiosa ? refer?ncia no meio e n?o se incomoda em receber a todos. Mas hoje ela mesma reconhece as dificuldades que tem para trabalhar. Com problemas de locomo??o desde um acidente sofrido em 2001 - ela se movimenta com um andador -, a freira se esfor?a para passar tudo o que aprendeu aos futuros postuladores brasileiros.
A preocupa??o em criar uma onda de canoniza?es ? tamanha que at? o final do ano espera lan?ar uma apostila com cerca de 40 p?ginas detalhando, em portugu?s, o passo a passo para fazer um santo. "Com o avan?o da ci?ncia, que tem explica??o para tudo, est? cada vez mais dif?cil provar milagres e fazer santos, mas ? um trabalho que vale a pena", diz.
A julgar pela quantidade de candidatos ? santifica??o no Pa?s, n?o ? s? ela que pensa assim. Com trabalho s?rio dos postuladores e boa vontade do Vaticano, o Brasil est? bem encaminhado. Afinal, tudo indica que nossos santos de casa fazem milagre sim. S? falta o reconhecimento formal.


Fonte: Isto?

» Siga-nos no Twitter
» Participe da comunidade no Orkut

Tags:

Fonte: Notícias de Uruçui  |  Publicado por: Gleydson Coelho
Comente através do Facebook
Matérias Relacionadas
Publicidade
Publicidade Cerrados Restaurante
Publicidade
Publicidade
Publicidade