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URUÇUÍ: UMA HISTÓRIA A SER DESBRAVADA

Publicada em 25 de Julho de 2011 às 09h42 Versão para impressão


Vsita aérea da cidade Vsita aérea da cidade
No alvorecer do seu centésimo nono ano de emancipação política, os uruçuienses ainda têm muito a descobrir no tocante aos aspectos históricos. O que se tem lido em livros, revistas, páginas eletrônicas e monografias, sobre o município de Uruçuí, não passa de uma repetição enfadonha de dados sobre a, hoje zona urbana. E o mais gritante, são informações validadas sem a provisão de contesto. É chegada a hora do abandono de uma postura conformista e passiva frente as aspectos que são apresentados como verdades absolutas. Principalmente quando se fala da história social de um povo onde dezenas de ideologias estão presentes. E o pior, a história que se repete, dá demasiada ênfase à primeira palhoça construída às margens do generoso rio Parnaíba-que é tida como o marco inicial do que é, hoje, a cidade; e, por extensão, o princípio; já que, praticamente, não se nota nos textos, uma referência à zona rural. Nesse sentido, é oportuno ressaltar que o município de Uruçuí foi povoado a partir da zona rural. Não o inverso. E ainda, nesse embrulho histórico, acontece ao desconexo quando se diz que o primeiro habitante de Uruçuí, um homem nominado como Teófilo Santos, veio do povoado Santa Maria. Esta é uma localidade que sempre pertenceu ao município.

Começar a falar de nossa história a partir de onde os manuais teimam em registrar e as pessoas não resistem em repetir, principalmente a classe estudantil, é incorrer num corte histórico sem precedentes. É ignorar, por exemplo, que nações indígenas como os Precatizes e Acroás, habitaram estas terras. Aqui, eles viveram, produziram cultura, foram humilhados, aculturados, escravizados e dizimados. E ainda, não mencionar a questão indígena é mostrar-se desconhecedor de execuções com requintes de crueldades, promovidas pelos “desbravadores”, contra as nações indígenas que foram os primeiros habitantes da geografia que, hoje, delineia o município de Uruçuí. Dentre tantos pontos geográficos o, presentemente, povoado Sangue, que dista quarenta e oito quilômetros da sede do município. Lá, Cipriano Borges e comandados, por volta de 1756, empunharam a bandeira do terror sem limite contra os nativos-numa verdadeira demonstração das ações que o homem é capaz de executar contra quem estiver à sua frente, para que a sua ambição seja saciada. Ali, naquele lugarejo, não exterminaram apenas uma nação indígena; não apenas fizerem derramar o sangue de adultos e crianças. Promoveram muito mais: jogaram no lixo da história, a cultura e a trajetória de muitas vidas. E parece ser com esse propósito de negação histórica, que muitos daqueles que difundem a nossa história, o fazem subtraindo fatos de suma importância como o supracitado.

Ainda na década de 70, nas veredas e matas do povoado Sangue, eram encontrados muitos vestígios-pedaços de objetos-pertencentes à cultura indígena que ali se desenvolveu por centenas de anos. É, pois, lamentável que os aspectos sociológicos que desenharam as nações indígenas dessa grande região, não sejam, hoje, objetos de estudo. Seria uma página importante no caminho do entendimento da vida daqueles que nos antecederam. Seria uma cutucada no estado de hibernação da história.

E mais, não reconhecer a zona rural como berço da sociedade uruçuiense, é lançar na vala comum do esquecimento, que os escravos deram o próprio sangue nos afazeres de fazendas do interior desse gigantesco município denominado Uruçuí. Nos livros de registros de batizados realizados pelo pároco Serafim Gomes Albuquerque, entre os anos de 1855 e 1857, encontram-se provas cabais que apontam a existência de fazendas e escravos na zona rural de Uruçuí. Dentre elas, Fazenda Estiva. Nesta, em 1857, foi batizada a pequena “Petrudes”, filha da escrava Clara-que trabalhava para o fazendeiro João Alves Moreira.

Por tudo que foi supramencionado, é mister que se mude o comportamento frente à trajetória histórica da realidade sócio, econômica, política e cultural da gigantesca área territorial, hoje denominada Uruçuí. Do ponto de vista crítico, é imperativo que se repense a história que se ouve por aí. Até porque pelo que se tem observado a “história oficial” não passa de um engodo com tendência a enriquecer/enaltecer a alma de alguns mortais que estiveram à frente do poder público municipal e/ou algumas famílias tidas como tradicionais. E o povão? Onde fica? E para parafrasear Bertold Brecht: o povão não escreve história?

Enfim, a nossa trajetória histórica é bem mais complexa e rica do que os relatos difundidos. Ela não representa apenas a vontade político-histórica de alguns grupos, mas, sobretudo, a grande luta de um povo guerreiro que, construindo a própria sobrevivência, foram povoando o solo fértil desse município.



Professor Anchieta Santana

Uruçuí-PI, 2011


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Palavras-chaves: artigo - desbravada
Fonte: Da redação  |  Edição: Jackson Coelho

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Comentários (2)

  • 08/08/2011 às 18h57

    Minha família é de Uruçuí, fiquei impressinada com a história dos nossos ancestrais È importate saber a verdade nua e crua! Parabéns!!!!!!!

    Cisa Lima, Teresina-PI
  • 26/07/2011 às 08h13

    Nossa! Adorei saber de tudo isso, acho q nunca tinha ouvido falar assim da historia de Uruçui.....Parabéns!!!

    Juliana Martins, Uruçuí-PI
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